20 de fevereiro de 2008

Crescendo mais e crescendo errado


Esta semana li o trabalho de conclusão de curso do jornalista Rafael Sampaio, que se formou na USP, sobre habitações precárias ou favelas, no popular (Periferia é periferia em qualquer lugar - http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/166 - leia porque vale a pena). Li também no caderno cotidiano de segunda-feira 18/02/08, que tratou de um assunto semelhante (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u373314.shtml ). O jornal informa que de 1996 a 2007 a população das periferias de SP aumentou em 1,23 milhões de pessoas (população de Guarulhos), enquanto o centro perdeu 433 mil pessoas (população de Santos). Ambos os textos orbitam a questão habitacional da cidade. Enquanto o primeiro trata dos resultados da falta de planejamento urbano, políticas habitacionais e todo o monte de interesses particulares e de especulações imobiliárias, que culminaram com a explosão das favelas na cidade e o espalhamento da mancha urbana para regiões longe do centro e conseqüentemente, da infra-estrutura. E nessa segunda, a Folha trouxe a tal reportagem mostrando a ocupação de áreas distantes, sobretudo no entorno da Serra da Cantareira, na zona norte e nas áreas de mananciais em Parelheiros, Marsillac e outras regiões na zona sul. O interessante no trabalho de Rafael Sampaio é entender, sob uma perspectiva social e temporal, a formação da metrópole e o espalhamento dos bairros. O texto da Folha é interessante, pois mostra agora e em tempo real o desenvolvimento dessa mesma dinâmica.

É realmente de tirar o sono saber que, segundo a própria Prefeitura, a maior parte desses novos loteamentos são clandestinos ou oriundos de especulação imobiliária. A própria Prefeitura se apresenta resignada com a situação, praticamente dizendo “É não tem jeito”. A questão toda é que com um planejamento urbano eficiente, descente e honesto a cidade não precisava crescer para fora e sim em direção ao centro, onde existe uma oferta brutal de prédios desocupados e a infra-estrutura está instalada. Ou seja, meio que a Prefeitura lavou as mãos e a cidade vai crescer do jeito que aconteceu até hoje, governada por interesses (ou ganância) dos espertalhões daqui. O texto de Rafael Sampaio, por exemplo, relata a famosa para quem prestou atenção na época, ocupação do prédio da fábrica de tecidos na Av. Prestes Maia. A gestão anterior até tinha um plano de ocupar prédios vazios para a “reforma habitacional” da cidade, coisa que eu acho muito válida. Plínio de Arruda Sampaio também tratou do tema durante a campanha para prefeito da capital.

Claro que não é só a questão urbanística que me tira o sono, a Serra da Cantareira está sendo subida, digamos assim, principalmente em Guarulhos, Brasilândia e Anhanguera. Como biólogo dói muito, pois veja você, a poucos quilômetros da praça da Sé existem bugios em liberdade, e sabemos que uma espécie de primata é um luxo incomparável em qualquer ambiente em questão. E lá existem outras ainda. E agora mais uma, o homo sapiens, que deveria estar ocupando todo esse concreto já de pé no centro. Assim como a serra, as áreas próximas às represas e a região de Parelheiros possuem remanescentes de Mata Atlântica e consistiriam ou consistem naquela janela para ambientes mais agradáveis na capital que todos nós necessitamos, parques gigantescos para a cidade gigantesca. E ambas as áreas estão sendo degradadas, a olho nu, agora mesmo.

A foto acima ilustra o assédio a serra por um desses bairros. Essa foto foi tirada da Av. Cerro Cora, de dentro de uma ex-concessionaria de veículos. Tem uma outra cena de gelar a alma no prédio do Banespa, olhando para oeste a mancha se alastra e esparrama pela parte mais baixa da Serra e da formação próxima ao pico do Jaraguá e vai embora, Caieiras, Cajamar e todas as outras vizinhas. Algumas ainda conseguem subir pela Serra, numa das faces mais altas, pelo menos do meu ponto de vista. Tirei as fotos, mas não dão a dramaticidade do fato.

Inclusive, nessa questão da Serra da Cantareira, é sabido que não é só pobre que procura os terrenos baratos não, tem um monte de residências de "veraneio"por lá das classes A e B, lógico que pudor não é proporcional a conta bancária.

Pois bem, seria importante que nas prioridades do próximo prefeito estivesse a racionalização do crescimento da cidade, que é o ponto chave para a cidade algum futuro, palavra muito pouco utilizada por aqui. Porém, acho que deveriamos ser mais incisivos em tomar conta da cidade, por nós mesmos, sem esperar a coisa acontecer.

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