19 de janeiro de 2009

Medo.

“O amor elimina o medo; mas reciprocamente o medo elimina o amor. E não apenas o amor. O medo elimina a inteligência, elimina a bondade, elimina todo o pensamento de beleza e verdade. Só persiste o desespero mudo ou forçosamente jovial de quem presente a obscena Presença no canto do quarto e sabe a porta está trancada, que não há janelas. E então a coisa o acomete (...). E num instante o seu terror silencioso se transforma em frenesi tão violento quanto inútil. Não é mais um homem entre seus semelhantes, não mais um ser racional falando articuladamente a outros seres racionais; somente um animal ferido, ululando e se debatendo na armadilha. Pois, no fim, o medo elimina no homem a própria humanidade. E o medo, meus bons amigos, O MEDO É A PRÓPRIA BASE E FUNDAMENTO DA VIDA MODERNA. Medo da tão apregoada tecnologia que, enquanto eleva o nosso padrão de vida, aumenta a probabilidade de nossa morte violenta. Medo da ciência que tira com uma das mãos ainda mais do que tão prodigamente distribui com a outra. Medo das instituições manifestamente fatais pelas quais, em nossa lealdade suicida, estamos prontos a matar ou morrer. Medo dos Grandes Homens que elevamos, por aclamação popular, a um poder que eles usam, inevitavelmente para nos massacrar e escravizar. Medo da guerra que não queremos, mas fazemos de tudo para desencadear...”


William Tallis em "O macaco e a essência" (Aldous Huxley, 1948).

Ainda observando...

Pois é, antes de "comemorar"um ano de ausência neste espaço, estamos voltando. Garanto que o afastamento foi por motivos muito nobres: família, novo emprego velho e casa nova nova. Outro bairro, a mesma Zona Oeste e a mesma sensação de que em algum ponto o paulistano abriu mão de evoluir como sociedade.

Estamos voltando, assim no plural, pois agora com colaboradores e tudo mais. Mais gente observando e tentando gritar. Mesmo com as tempestades de nossos dias.


10 de março de 2008

A epopéia paulistana


Fato 1: A questão de 10 dias um grande amigo de Guarulhos, onde eu cresci, me encontrou próximo ao Instituto Butantan para uma noite de futebol, vindo direto do trabalho na Avenida Berrini. O engano dele foi preferir, por uma série de “comodidades”, ir de carro de Guarulhos à Berrini e de lá, na hora de pico, tentar atravessar os 7 Km que nos separavam, ao invés de pegar o trem na estação Berrini e descer na estação Cidade Universitária e me encontrar na USP. Levou 1,5 h para fazer o trajeto ou UM QUILÔMETRO A CADA 13 MINUTOS. De trem, seriam uns 20.

Fato 2: Na semana passada a cidade registrou quebras diárias do recorde de extensão de congestionamentos, fato que levou a grande mídia paulistana a dedicar páginas ao assunto, tanto o caderno “Cotidiano” da Folha de ontem como a “Vejinha”. Na primeira temos as constatações e entrevista com o presidente da CET, que aponta a verticalização da cidade e o aumento da frota como responsáveis pela situação atual. Fala quase nada de transporte público e/ou alternativo e se esquece que é pior ainda para a cidade o espalhamento da mancha urbana, que só dilui os carros, mas coloca o sujeito a 15 Km do trabalho. Ele também comenta que questões econômicas podem interferir nesta ou naquela decisão de trânsito em SP.

Fato 3: Minha percepção pessoal é de que tem sido uma aventura sair a rua ultimamente, mesmo que a pé, devido claro, aos carros, ao trânsito e suas conseqüências (abusos das leias de direção, poluição e afins). Não existe pior atividade em São Paulo do que sentar atrás de um volante. Perde feio de uma ida ao dentista.

Fato 4: Na mesma Folha de ontem, domingo 9 de março, Gilberto Dimmenstein compara as mortes, quantitativamente e qualitativamente, por homicídio e decorrentes do envenenamento da atmosfera da cidade pelos veículos. Mais gente morre por ano vítimas da poluição do que vítimas de homicídio. A questão da segurança mundo a fora se transformou em um grande produto, mais um filão lucrativo a ser explorando por mídia, empresas de segurança (câmeras, arame enrolado, segurança privada, carros blindados) e claro matéria fértil para políticos, tal e qual a questão da seca no Nordeste, por exemplo e mantém a população em um estado de pressão constante. A da poluição ainda não sensibilizou ninguém, ou pior dentro da lógica do mercado livre e capitalismo, ainda não virou um bom produto, desta forma enquanto o número de homicídios vem caindo ano a ano, os níveis de poluição estão aumentando em grande proporção.

Fato 5: O governo do estado aboliu uma das estações de metrô na linha amarela, a estação 3 poderes, entre a estação Butantã e estação Morumbi. Sucumbiram às pressões dos moradores da área que temiam a desvalorização dos imóveis (embora nas minhas recentes procuras por imóveis eu tenha constatado que perto das estações é tudo mais caro). O resultado é que a distância entre as duas estações é a maior de toda a rede, pois falta uma no meio.

Fato 6: A Prefeitura, seguindo a mesma dinâmica do governo estadual de privilegiar determinados segmentos e grupos reduzidos de pessoas, colocou na geladeira os projetos dos corredores das avenidas Sumaré, Brasil, Brás Leme e Corifeu de Azevedo Marques, na zona oeste. Mais uma vez, um ônibus transporta até 70 pessoas e pelo corredor faz corridas rápidas, como o caso do corredor da Rebouças. A prefeitura sucumbiu a pressão dos comerciantes, cuja inteligência pode ser contestada, que diziam que a diminuição do fluxo de carros e vagas para estacionamento na rua atrapalhariam os negócios. Mas amigo, você percebe que um corredor aumenta o fluxo de pessoas, que são consumidores e não os carros, na frente da sua loja? E quantos carros cabem na frente da sua loja? Dois? Acompanhou o raciocínio? Por outro lado, durante toda essa gestão não tomei conhecimento de novos corredores de ônibus e lá se vão quatro anos. Mas posso citar novos túneis que eliminam um farol ou obras megalomaníacas-faraônicas como a Ponte Estaiada. Fica claro que a prioridade das duas administrações não é a política coletiva, medidas para todos ou tem como objetivo plantar algo hoje para a cidade colher daqui a alguns anos. Vale mais o CEP do sujeito, quanto ele tem no banco e quais seus interesses. Ver a cidade com os olhos de HABITANTE, de USUÁRIO e de que a cidade é de TODOS parece ser pedir de mais destes homens de mente pequena, ambições minúsculas e ganância estratosférica.

Fato 7: Há duas semanas São Paulo atingiu a marca de 6 milhões de automóveis registrados. A industria comemora sorridente.

27 de fevereiro de 2008

Corrida para o vale


Há alguns dias saiu uma pesquisa do Datafolha para corrida para prefeito de SP, onde Geraldo Alckimin e Marta Suplicy aparecem empatados em primeiro lugar, sendo que o tucano venceria em caso de segundo turno. Quem me conhece sabe que tenho dois pés e o tronco atrás com o PSDB. O mesmo vale para o PT, antes que alguém rotule o blogue.
Motivos não me faltam. Desde FHC e as mirabolantes privatizações (lembremos que o ex-presidente vendia a idéia para a classe média que as estatais oneravam o Estado. As empresas foram vendidas, os compradores enriqueceram, o Estado não ficou mais leve, pelo contrário, aumentaram a dívida pública e a carga tributária, ambas as mais altas da história pré-Lula), passando pela quase ditadura tucana no Estado de São Paulo, começada com Mario Covas, que pelo que eu saiba é o primeiro governador a sair no braço com professores em greve. Depois veio G.A. cujo fala ao final do documentário “Prisioneiro da grade de ferro” (quem não viu, veja correndo!!!!) dizendo que seu governo fora o que construiu o maior número de vagas em penitenciárias na história. Além do que, 16 anos a frente do Estado acredito serem suficientes para uma revolução educacional por aqui, coisa que ficou longe de acontecer. A mais recente o ex-prefeito e agora governador Zé Serra, possivelmente uma das pessoas com maior rejeição por onde passa. Não é pegação no pé, Serra não é bem quisto no Palmeiras, onde é conselheiro, na política e nem no PSDB, seu próprio partido. Vou ser franco, não sei a fundo política, tão pouco acho que alguém saiba, fora os jornalistas que trabalham 24h com isso. Vemos as questões políticas através da ótica de quem nos conta a história, os jornalistas, e pelo resultado das ações dos políticos., dessa forma, evocando a tal liberdade de expressão dou meus pitacos mesmo. Pois bem, não foi o Serra que disse que cumpriria seu mandato de prefeito até o fim? Quem é o Kassab? Aliás nas últimas eleições me parece que do nada, tanto a capital como o Estado foram governados pelo PFL, sem que eu nem soubesse quem eram os quadros desse partido em São Paulo. Tanto o Estado como a Prefeitura, segundo a lógica tucana é usa-los como trampolim para o planalto central, numa sede de poder estranhíssima e pouco interessante para nós aqui na cidade.
Seguida a eleição de Serra, ele foi logo tratando de se preparar para o Bandeirantes -acredito que o mesmo ocorrerá com G.A. pois o cobertor do PSDB é curto - e arquivando alguns projetos interessantes para a cidade, como o museu da cidade, que se localizaria no Palácio das Industrias entre outras ações que eu contesto mas guardarei para mim, por enquanto.

Resumindo, espero que G.A. não vença as eleições. Espero que tenhamos debates sobre os projetos para 20 anos em São Paulo e não que se justifiquem votos pelo menos pior, tão pouco se justifique o voto nele com a máxima “O PT faz igual” que além de não ser totalmente verdade não justifica nada.

Um passeio no Mundo Livre

Semana passada, como a maioria ficou sabendo, Fidel Castro, presidente, ditador, chefe, comandante, herói e corneteiro de Cuba renunciou ao cargo. Uma grande parte das pessoas não-cubanas comemorou o fato, vislumbrando os passeios de Cuba no “Mundo Livre” e a pá de cal na Revolução Soviética do começo do século passado. Eu pessoalmente não vejo tantos motivos assim para a comemoração, sobretudo com relação a experiência soviética. Sejamos francos, conhecemos no dia a dia poucos cubanos e pouquíssimos soviéticos de modo que possamos ter uma visão crítica, imparcial e isenta sobre o assunto. Daqui nós vemos as coisas nesse bloco socialista sob os filtros ideológicos da grande mídia, que procura sempre que possível demonizar aquela experiência. Evidente que seria outro pais, com outras pessoas, mentalidade e cultura se os principais veículos de comunicação fizessem a apologia ao socialismo e ao comunismo sendo estes a fonte de acumulação de capitais por parte de seus donos.

Devemos lembrar que, pelo que consta, a Rússia e Cuba antes das Revoluções eram feudos de Czares e milionários de Miami respectivamente e depois de alguns anos, menos do que os que temos de República, a Rússia (ou União Soviética) ficou ombro a ombro com os EUA na corrida espacial, por exemplo ou Cuba desenvolveu um aparato social que qualquer um dos vários milhões de brasileiros das classes C, D e E invejariam. Ou seja saíram melhores do que entraram. A “reentrada" da Rússia sim foi catastrófica, pulando direto para um neoliberalismo que construiu toda aquela máfia e tudo mais.

Esperamos que Cuba não tenha o mesmo fim. A dimensão da nossa doutrinação ideológica fica clara quando percebi que ninguém discute as questões da Revolução, o que podia ter dado certo, o que deu errado, como as coisas poderiam funcionar como alternativa ao nosso capitalismo neoliberal. Quer dizer, para quase todo mundo, estamos fadados a participar do enriquecimento de 1% da população e ficarmos com as migalhas. A verdade única e imutável é que seremos assim para sempre, cultuando o deus dinheiro e fazendo o que for necessário para conseguí-lo, desde assaltar velhinha na porta do banco a invadir paises do outro lado do mundo. Qualquer idéia que mude a ordem do pensamento vigente é logo atacada e ironizada. Isso é ruim, nos conduz ao discursso único e pouca evolução. E isso acontece o tempo todo.
Vejo com muito bons olhos as experiências, pensamentos e tentativas de melhorar o funcionamento dos paises e do mundo e pouco a comemorar com o fim de um movimento que no mínimo pretendia tornar todos os cidadãos iguais.

É difícil aqui em São Paulo pensar numa coisa dessas, sem propriedade particular, coletivização, divisão de bens e pessoas iguais sem que o poder econômico dite o valor dessas pessoas. Cabe aqui questionar a quem serve essa doutrina, quem ganha e quem perde com isso e se quem nos empurra a verdade universal, a verdade de Deus goela abaixo tem pensado com o bolso ou com e cérebro.


20 de fevereiro de 2008

Crescendo mais e crescendo errado


Esta semana li o trabalho de conclusão de curso do jornalista Rafael Sampaio, que se formou na USP, sobre habitações precárias ou favelas, no popular (Periferia é periferia em qualquer lugar - http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/166 - leia porque vale a pena). Li também no caderno cotidiano de segunda-feira 18/02/08, que tratou de um assunto semelhante (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u373314.shtml ). O jornal informa que de 1996 a 2007 a população das periferias de SP aumentou em 1,23 milhões de pessoas (população de Guarulhos), enquanto o centro perdeu 433 mil pessoas (população de Santos). Ambos os textos orbitam a questão habitacional da cidade. Enquanto o primeiro trata dos resultados da falta de planejamento urbano, políticas habitacionais e todo o monte de interesses particulares e de especulações imobiliárias, que culminaram com a explosão das favelas na cidade e o espalhamento da mancha urbana para regiões longe do centro e conseqüentemente, da infra-estrutura. E nessa segunda, a Folha trouxe a tal reportagem mostrando a ocupação de áreas distantes, sobretudo no entorno da Serra da Cantareira, na zona norte e nas áreas de mananciais em Parelheiros, Marsillac e outras regiões na zona sul. O interessante no trabalho de Rafael Sampaio é entender, sob uma perspectiva social e temporal, a formação da metrópole e o espalhamento dos bairros. O texto da Folha é interessante, pois mostra agora e em tempo real o desenvolvimento dessa mesma dinâmica.

É realmente de tirar o sono saber que, segundo a própria Prefeitura, a maior parte desses novos loteamentos são clandestinos ou oriundos de especulação imobiliária. A própria Prefeitura se apresenta resignada com a situação, praticamente dizendo “É não tem jeito”. A questão toda é que com um planejamento urbano eficiente, descente e honesto a cidade não precisava crescer para fora e sim em direção ao centro, onde existe uma oferta brutal de prédios desocupados e a infra-estrutura está instalada. Ou seja, meio que a Prefeitura lavou as mãos e a cidade vai crescer do jeito que aconteceu até hoje, governada por interesses (ou ganância) dos espertalhões daqui. O texto de Rafael Sampaio, por exemplo, relata a famosa para quem prestou atenção na época, ocupação do prédio da fábrica de tecidos na Av. Prestes Maia. A gestão anterior até tinha um plano de ocupar prédios vazios para a “reforma habitacional” da cidade, coisa que eu acho muito válida. Plínio de Arruda Sampaio também tratou do tema durante a campanha para prefeito da capital.

Claro que não é só a questão urbanística que me tira o sono, a Serra da Cantareira está sendo subida, digamos assim, principalmente em Guarulhos, Brasilândia e Anhanguera. Como biólogo dói muito, pois veja você, a poucos quilômetros da praça da Sé existem bugios em liberdade, e sabemos que uma espécie de primata é um luxo incomparável em qualquer ambiente em questão. E lá existem outras ainda. E agora mais uma, o homo sapiens, que deveria estar ocupando todo esse concreto já de pé no centro. Assim como a serra, as áreas próximas às represas e a região de Parelheiros possuem remanescentes de Mata Atlântica e consistiriam ou consistem naquela janela para ambientes mais agradáveis na capital que todos nós necessitamos, parques gigantescos para a cidade gigantesca. E ambas as áreas estão sendo degradadas, a olho nu, agora mesmo.

A foto acima ilustra o assédio a serra por um desses bairros. Essa foto foi tirada da Av. Cerro Cora, de dentro de uma ex-concessionaria de veículos. Tem uma outra cena de gelar a alma no prédio do Banespa, olhando para oeste a mancha se alastra e esparrama pela parte mais baixa da Serra e da formação próxima ao pico do Jaraguá e vai embora, Caieiras, Cajamar e todas as outras vizinhas. Algumas ainda conseguem subir pela Serra, numa das faces mais altas, pelo menos do meu ponto de vista. Tirei as fotos, mas não dão a dramaticidade do fato.

Inclusive, nessa questão da Serra da Cantareira, é sabido que não é só pobre que procura os terrenos baratos não, tem um monte de residências de "veraneio"por lá das classes A e B, lógico que pudor não é proporcional a conta bancária.

Pois bem, seria importante que nas prioridades do próximo prefeito estivesse a racionalização do crescimento da cidade, que é o ponto chave para a cidade algum futuro, palavra muito pouco utilizada por aqui. Porém, acho que deveriamos ser mais incisivos em tomar conta da cidade, por nós mesmos, sem esperar a coisa acontecer.

14 de fevereiro de 2008

Aquela obra anti-skate

A paisagem urbana é toda dominada por carros. Para qualquer lado que se olhe eles estão lá, volumosos e velozes. Seja na parede de taipas do Pátio do Colégio, seja na frente da reformada Pinacoteca ou quase sobre o altar da Igreja da Consolação. Este fato por si já provoca restrição do uso do espaço urbano pela maior parte das pessoas. Mas e quando os próprios habitantes da cidade restringem o ir e vir dos outros habitantes? Além das muito comuns restrições as ruas sem saída, temos o caso das ruas onde simplesmente a diversão é proibida, “fora-da-lei”. Esse é o caso da Praça Horácio Sabino, na fronteira Sumaré - Vila Madalena, ou seja lá qual bairro for. Trata-se, na verdade tratava-se, de uma praça onde a ladeira, suave, lisa como um pêssego, era utilizada por skatistas, principalmente os portando long boards, dadas aquelas características. A moçada dividia a praça com o pessoal do bairro que ia dar uma corridinha, levar o cachorro também para dar uma corridinha e por aí vai. E não é que de um dia pro outro a prefeitura, sucumbindo às pressões dos moradores da rua, constrói faixas de paralelepípedos separadas uns 3 metros umas das outras, durante toda sua extensão para impedir o esporte? Pois é, aconteceu e a risível justificativa era de que aquela é uma obra anti-enchente, visando diminuir a enxurrada rua abaixo! Eu até acho que os skates poderiam incomodar, mas tenho certeza que outras soluções poderiam ter sido dadas de modo a não matar mais um dos escassos espaços públicos arborizados e tudo mais, que facilitavam a interação entre as pessoas e por que não dizer, protegia a rua, pois a posse da rua é do povo, oras.

Algum tempo depois, dada a repercussão, a prefeitura prometeu reverter a burrada, ou o equivoco, como quiserem, mas eu nem preciso falar se isso aconteceu de fato.

Mais na mesma linha


O equivoco na questão da obra anti-skate, além do motivo óbvio que não se enxota as pessoas dessa maneira, é que a atual administração da Prefeitura é que ela é formada por gente que não enxerga nada além dos seus próprios valores, incluindo suas percepções de arte e esporte.

O Brasil tem um nome respeitabilíssimo no skate mundial, logo como esporte popular caberia a Prefeitura fomentar sua prática e não agir no sentido oposto, o mesmo vale, claro, para a questão que a Prefeitura tem que fomentar a convivência entre as pessoas para manter a cidade viva e amarrada socialmente.

Nessa mesma linha, existe um contrato da administração municipal com uma(s) empresa(s) para a pintura de pontes, viadutos, encostos e todo o resto de concreto que pertença à cidade. Coincidentemente estes são os pontos utilizados por diversos grafiteiros para dar aquele colorido nos paredões. Brasileiros, vejam só, também são deveras respeitados nessa área e alguns artistas foram chamados para grafitar até um castelo escocês. Por aqui diversas galerias de arte têm montado mostras dessa arte urbana, de certa forma elitizando o lance todo, não de uma maneira negativa, claro, apesar de eu pensar que o que é da rua é da rua. Pois bem, diversos artistas e obras tiveram suas obras apagadas pela broxa insaciável das empresas de limpeza. Andréa Matarazzo, que recentemente ganhou capa de revista como o xerifão da cidade, mas é só o secretário das subprefeituras, defende as medidas dizendo que o que é arte para mim, pode não ser para as outras pessoas e não há como diferenciar obras de artistas com simples pixações ainda mais que o serviço é feito por empresas terceirizadas. Essa questão da arte é interessante, pois se esperássemos unanimidades poderíamos passar esta tinta cor de nada naquele painelzão ao lado da estação Anhangabaú, por exemplo. Ou o monumento à imigração japonesa na 23 de Maio, afinal as cores e formas podem não agradar a todos, correto? Da mesma maneira apesar de numerosas publicações, nacionais inclusive, ilustrarem grafite e tudo mais, uma mera volta pela cidade pode solucionar qualquer dúvida pois, sinceramente, acredito que o Andréa Matarazzo não é burro. O conjunto da obra é de preocupara. Esse conservadorismo, arcaico compromete até a própria vocação de vanguarda da cidade de São Paulo.

Aqui tem um link bacana: http://www.graffiti.org.br/



7 de fevereiro de 2008

Jasco

Seguindo a linha colaboradores, espero não ser processado, vai aí um post de Phydia de Athayde, que escreve para a Carta Capital e possui uma (uma??) indignação em comum comigo que é a história da praça do skate, sobre a qual escrevo outra hora. Neste post ela conversa com pesquisadores sobre a maconha, numa reportagem publicada na CC. Coloquei, ainda, o link para o blog dela, que vale a conferida regular.

(edição 471 da CartaCapital (de 21/11/07) )

O cérebro e a maconha

O neurocientista Renato Malcher-Lopes desfaz mitos sobre a drogaa Phydia de AthaydeOs atributos medicinais da maconha são velhos conhecidos do homem. Nesta terça-feira, 6 de novembro, um estudo da Universidade da Califórnia indicou que um composto da droga pode ser usado no tratamento da depressão. Há mais de 3 mil anos, um texto sagrado do hinduísmo a descrevia como capaz de aliviar a ansiedade e como fonte de alegria e regozijo. No Tibete e no Nepal, é tradicionalmente utilizada no tratamento de ulcerações, reumatismo e inflamações de ouvido, além de agir como anticonvulsivo e antiespasmódico em casos de epilepsia e tétano. Mas a tradição nada tem a ver com o papel hoje reservado à droga, substância ilegal mais consumida no mundo e alvo da política antidrogas norte-americana, com reflexos mundiais.Na última década, a descoberta de substâncias produzidas pelo cérebro que agem de forma similar à da maconha (os endocanabinóides) reabriu a discussão sobre os benefícios terapêuticos da droga. Dois cientistas brasileiros acabam de unir conhecimentos e as mais recentes pesquisas sobre o tema para lançar Maconha, cérebro e saúde (Ed. Vieira & Lent, 22 reais). Um dos autores, o neurocientista Sidarta Ribeiro, que descobriu como o sono e os sonhos atuam na organização das memórias, é diretor de pesquisas do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), um dos mais promissores pólos científicos do País. O outro, o neurocientista Renato Malcher-Lopes, apresentou um projeto de pós-doutorado na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e, atualmente, trabalha no Centro de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Malcher-Lopes participou da descoberta da regulação hormonal dos endocanabinóides e pesquisa a atuação da leptina e outros hormônios no controle do apetite e no equilíbrio fisiológico.A partir do paralelo entre os endocanabinóides e os canabinóides da maconha, o livro traz uma nova maneira de entender os mecanismos de ação da droga na saúde, na mente e no comportamento. Na entrevista a seguir, Malcher-Lopes explica como a maconha atua no cérebro, destaca os riscos à saúde, defende os benefícios terapêuticos comprovados pela ciência e, principalmente, desfaz mitos.
CartaCapital: Quais lacunas no conhecimento sobre a ação da maconha no cérebro o livro busca preencher?
Renato Malcher-Lopes: Por nossa formação em biologia molecular e em neurobiologia, resolvemos mostrar como processos biológicos de dimensões moleculares se relacionam com experiências mentais e com o comportamento. A grande novidade para o público leigo é a constatação de que o organismo produz substâncias semelhantes aos princípios ativos da maconha, os endocanabinóides, dentro de um sistema de regulação extremamente importante para quase todos os aspectos da fisiologia. Uma conseqüência desse novo conhecimento é a maior compreensão dos mecanismos por trás dos efeitos medicinais da maconha e dos problemas causados pelo uso abusivo.
CC: O livro menciona um estudo holandês, publicado neste ano, que concluiu “não haver perda detectável de tecido nervoso em usuários crônicos de maconha”. Tal informação contradiz o discurso comum de que a droga produz danos irreversíveis ao cérebro. Quem está com a razão?RML: A preocupação de que a maconha possa danificar o cérebro é legítima. Felizmente, contudo, as evidências indicam que este não é o caso, o que representa uma notícia muito boa, já que muitas pessoas poderão ter seus sofrimentos reduzidos, sobretudo doentes de câncer recebendo quimioterapia e pessoas que sofrem de dores severas para as quais os atuais analgésicos, com exceção da morfina, não são tão eficientes. Nunca houve consenso científico de que a maconha pudesse causar danos cerebrais.
CC: A droga, segundo outra pesquisa mencionada, ajuda a proteger os neurônios durante processos degenerativos como o mal de Parkinson ou Alzheimer. E em indivíduos saudáveis? Os neurônios “morrem” ou são preservados?
RML: Não há nenhuma evidência de que a maconha cause morte de células de qualquer tipo em pessoas saudáveis ou não. Por outro lado, há componentes na maconha que podem proteger os neurônios de processos degenerativos em qualquer pessoa. Mas o uso abusivo pode aumentar o risco de surtos psicóticos em quem tem predisposição à esquizofrenia.
CC: Os Estados Unidos vivem um dilema entre permitir e reprimir a aplicação medicinal da maconha. No Brasil, a hipótese nem sequer é cogitada. Por que o uso terapêutico da droga enfrenta tantas barreiras?
RML: No Brasil, o maior entrave são as leis e o estigma que elas trazem. Os obstáculos ao uso médico da maconha não encontram respaldo nem nos preceitos médicos nem no conhecimento científico. Remédios precisam ser testados clinicamente para averiguação de eficácia e segurança em humanos, e isso já foi feito para várias propriedades terapêuticas da maconha. O fato de a maconha ser mais eficiente como remédio quando inalada sempre foi um inconveniente, já que nenhum médico se sente confortável ao ver o paciente encher os pulmões de fumaça. Mas hoje em dia existem vaporizadores que permitem a inalação dos princípios medicinais da maconha sem a contaminação pela fumaça, poupando os médicos desse dilema.
CC: O livro diz que a maconha atua na formação de memórias, em contradição com o do discurso comum, que associa a droga à perda de memória. Por que isso acontece?
RML: O consumo da maconha afetará de duas formas a memória de trabalho – aquela usada para manter na mente um número de telefone que acabamos de escutar, por exemplo. Durante os efeitos inebriantes da droga, essa memória fica bastante reduzida. Quando os efeitos agudos passam, existe ainda um efeito residual, bem mais fraco, que pode perdurar por várias horas. Se o sujeito fuma maconha o tempo todo, estará sempre sob um ou outro nível de efeito, o que prejudicará o aprendizado de novas coisas, mas não causará o apagamento ou afetará a recapitulação de memórias já consolidadas. Não há, portanto, evidências de efeitos permanentes na memória. Por outro lado, é importante salientar que, além de prejudicar seriamente o aprendizado, o uso de maconha certamente reduzirá a motivação para o estudo dos jovens em idade escolar.
CC: Como o cérebro se refaz da desorganização do processamento de informação provocada pela maconha?
RML: O que parece ocorrer sob o efeito da maconha é um reordenamento no fluxo de informações entre os circuitos neuronais, tornando-o menos rígido. Em tese, esse afrouxamento lógico ajuda a explicar a dificuldade no uso da memória de curto prazo, enquanto permitiria a interconexão mais fluida entre idéias, conceitos e emoções. Os canabinóides da maconha atuam como chaves que abrem essas interconexões de forma mais ampla, intensa e menos seletiva do que a que ocorre naturalmente. Quando o efeito acaba, o cérebro volta ao seu estado normal de funcionamento. Tudo indica que nesse estado normal os endocanabinóides ajam de forma semelhante aos canabinóides exógenos, porém, o fazem de maneira muito mais precisa, atuando em momentos específicos e de forma seletiva em determinados circuitos neuronais. Nós acreditamos que isto ocorra em processos neuronais envolvidos normalmente no reaprendizado e na criatividade.
CC: O que se pode afirmar sobre dependência de maconha?
RML: Ela não causa dependência fisiológica, mas pode causar dependência psicológica. A interrupção abrupta do uso crônico normalmente não causa transtornos fisiológicos, mas, sim, mau humor exacerbado, diminuição do apetite e intensificação dos sonhos. Há relatos raros de ocorrência de náusea, mas, de uma forma geral, os sintomas da abstinência de maconha caracterizam uma dependência psicológica, relacionada aos efeitos nos circuitos cerebrais associados a sensações prazerosas. Embora seja relativamente moderada, essa dependência pode ser agravada em pessoas que apresentem estados depressivos ou transtornos psicóticos. A incidência de dependência em maconha é considerada baixa se comparada às do álcool, do cigarro, da cocaína e da heroína.
CC: Quais os riscos ao cérebro da associação de maconha com outras drogas, tanto lícitas quanto ilícitas?
RML: Ainda não há estudos sobre possíveis danos cerebrais causados pela interação da maconha com outras drogas, mas tais interações certamente afetam outros aspectos da saúde. O uso concomitante de álcool e maconha, por exemplo, fará com que uma droga potencialize o efeito sedativo da outra, o que pode gerar sintomas de depressão. A combinação de maconha com qualquer droga antidepressiva, como a fluoxetina (princípio ativo do Prozac), pode, em casos raros, gerar transtornos psicóticos e deve ser evitada. A interação com drogas estimulantes, como cocaína e café, pode ser prejudicial para pessoas com propensão a problemas cardiovasculares. E o uso de maconha em associação ao cigarro normal pode potencializar os efeitos danosos que a fumaça causa ao pulmão. Por outro lado, a maconha também interage sinergisticamente com outros analgésicos, mas esta é uma interação desejável no tratamento de dores severas.
CC: Qual a sua opinião sobre a legislação brasileira, que pune o traficante e tolera o usuário de maconha?
RML: Tomando como base as informações científicas e considerações éticas, defendemos a regulamentação da pesquisa clínica e do uso médico da maconha, que representa uma forma eficaz e barata de aliviar o sofrimento e melhorar o prognóstico de muitos doentes.

31 de janeiro de 2008

Bike, Bike e Bike


Coloquei ai ao lado alguns links que eu acho interessantes, dentro do contesto do blog. Um dos mais importantes, sim, importantes, é o Apocalipse Motorizado. O blog é um dos principais divulgadores e articuladores dos ciclistas na guerrilha contra os automóveis. A lógica é muito simples. 1 carro transporta em média 1 pessoa, consome N litros de combustível, gera X toneladas de monóxido de carbono, 3 carros (3 pessoas) ocupam o espaço de um ônibus (umas 45 pessoas) e ocupam 70% do espaço urbano público. Daí o lance das bicicletas entrando no meio para tirar o espaço do carro, não só como meio de transporte mais rápido e limpo mas também como um agente libertador desse espaço público. A bicicleta deve ser integrada com outros meios de transporte, como o metrô, trem e ônibus para aumentar a eficiência de locomoção e, para tanto, há a necessidade destes pontos chave da cidade possuirem bicicletários e uma rede de ciclovias que os liguem as zonas residênciais. Pessoalmente penso que a idéia das bicicletas como meio de transporte esbarra na questão do que as pessoas pensam sobre liberdades individuais (e também na remediavel falta de infra-estrutura). Acho que em determinados nichos e segmentos da população você será excomungado caso sugira que o indivíduo deixe a caranga em casa e use um meio de transporte coletivo e/ou sustentável. O argumento, aposto, seria que vivemos num pais democrático e capitalista e a lógica destes dois modelos é de que eu posso fazer o que quiser, ter o que bem entender e fazer uso desse bem do jeito que me der na telha. A questão, porém, ultrapassa os limites da má vontade e/ou preguiça individual. Vivemos em um lugar com quase 11 milhões de habitantes, mais um monte de milhares que vem à cidade para realizar suas atividades e desta forma não há alternativa de mínima qualidade de vida se não houverem “sacrifícios” e restrição destas supostas liberdades de consumo, percebe?
ps: chupinhei a imagem acima do referido blog.