10 de março de 2008

A epopéia paulistana


Fato 1: A questão de 10 dias um grande amigo de Guarulhos, onde eu cresci, me encontrou próximo ao Instituto Butantan para uma noite de futebol, vindo direto do trabalho na Avenida Berrini. O engano dele foi preferir, por uma série de “comodidades”, ir de carro de Guarulhos à Berrini e de lá, na hora de pico, tentar atravessar os 7 Km que nos separavam, ao invés de pegar o trem na estação Berrini e descer na estação Cidade Universitária e me encontrar na USP. Levou 1,5 h para fazer o trajeto ou UM QUILÔMETRO A CADA 13 MINUTOS. De trem, seriam uns 20.

Fato 2: Na semana passada a cidade registrou quebras diárias do recorde de extensão de congestionamentos, fato que levou a grande mídia paulistana a dedicar páginas ao assunto, tanto o caderno “Cotidiano” da Folha de ontem como a “Vejinha”. Na primeira temos as constatações e entrevista com o presidente da CET, que aponta a verticalização da cidade e o aumento da frota como responsáveis pela situação atual. Fala quase nada de transporte público e/ou alternativo e se esquece que é pior ainda para a cidade o espalhamento da mancha urbana, que só dilui os carros, mas coloca o sujeito a 15 Km do trabalho. Ele também comenta que questões econômicas podem interferir nesta ou naquela decisão de trânsito em SP.

Fato 3: Minha percepção pessoal é de que tem sido uma aventura sair a rua ultimamente, mesmo que a pé, devido claro, aos carros, ao trânsito e suas conseqüências (abusos das leias de direção, poluição e afins). Não existe pior atividade em São Paulo do que sentar atrás de um volante. Perde feio de uma ida ao dentista.

Fato 4: Na mesma Folha de ontem, domingo 9 de março, Gilberto Dimmenstein compara as mortes, quantitativamente e qualitativamente, por homicídio e decorrentes do envenenamento da atmosfera da cidade pelos veículos. Mais gente morre por ano vítimas da poluição do que vítimas de homicídio. A questão da segurança mundo a fora se transformou em um grande produto, mais um filão lucrativo a ser explorando por mídia, empresas de segurança (câmeras, arame enrolado, segurança privada, carros blindados) e claro matéria fértil para políticos, tal e qual a questão da seca no Nordeste, por exemplo e mantém a população em um estado de pressão constante. A da poluição ainda não sensibilizou ninguém, ou pior dentro da lógica do mercado livre e capitalismo, ainda não virou um bom produto, desta forma enquanto o número de homicídios vem caindo ano a ano, os níveis de poluição estão aumentando em grande proporção.

Fato 5: O governo do estado aboliu uma das estações de metrô na linha amarela, a estação 3 poderes, entre a estação Butantã e estação Morumbi. Sucumbiram às pressões dos moradores da área que temiam a desvalorização dos imóveis (embora nas minhas recentes procuras por imóveis eu tenha constatado que perto das estações é tudo mais caro). O resultado é que a distância entre as duas estações é a maior de toda a rede, pois falta uma no meio.

Fato 6: A Prefeitura, seguindo a mesma dinâmica do governo estadual de privilegiar determinados segmentos e grupos reduzidos de pessoas, colocou na geladeira os projetos dos corredores das avenidas Sumaré, Brasil, Brás Leme e Corifeu de Azevedo Marques, na zona oeste. Mais uma vez, um ônibus transporta até 70 pessoas e pelo corredor faz corridas rápidas, como o caso do corredor da Rebouças. A prefeitura sucumbiu a pressão dos comerciantes, cuja inteligência pode ser contestada, que diziam que a diminuição do fluxo de carros e vagas para estacionamento na rua atrapalhariam os negócios. Mas amigo, você percebe que um corredor aumenta o fluxo de pessoas, que são consumidores e não os carros, na frente da sua loja? E quantos carros cabem na frente da sua loja? Dois? Acompanhou o raciocínio? Por outro lado, durante toda essa gestão não tomei conhecimento de novos corredores de ônibus e lá se vão quatro anos. Mas posso citar novos túneis que eliminam um farol ou obras megalomaníacas-faraônicas como a Ponte Estaiada. Fica claro que a prioridade das duas administrações não é a política coletiva, medidas para todos ou tem como objetivo plantar algo hoje para a cidade colher daqui a alguns anos. Vale mais o CEP do sujeito, quanto ele tem no banco e quais seus interesses. Ver a cidade com os olhos de HABITANTE, de USUÁRIO e de que a cidade é de TODOS parece ser pedir de mais destes homens de mente pequena, ambições minúsculas e ganância estratosférica.

Fato 7: Há duas semanas São Paulo atingiu a marca de 6 milhões de automóveis registrados. A industria comemora sorridente.

27 de fevereiro de 2008

Corrida para o vale


Há alguns dias saiu uma pesquisa do Datafolha para corrida para prefeito de SP, onde Geraldo Alckimin e Marta Suplicy aparecem empatados em primeiro lugar, sendo que o tucano venceria em caso de segundo turno. Quem me conhece sabe que tenho dois pés e o tronco atrás com o PSDB. O mesmo vale para o PT, antes que alguém rotule o blogue.
Motivos não me faltam. Desde FHC e as mirabolantes privatizações (lembremos que o ex-presidente vendia a idéia para a classe média que as estatais oneravam o Estado. As empresas foram vendidas, os compradores enriqueceram, o Estado não ficou mais leve, pelo contrário, aumentaram a dívida pública e a carga tributária, ambas as mais altas da história pré-Lula), passando pela quase ditadura tucana no Estado de São Paulo, começada com Mario Covas, que pelo que eu saiba é o primeiro governador a sair no braço com professores em greve. Depois veio G.A. cujo fala ao final do documentário “Prisioneiro da grade de ferro” (quem não viu, veja correndo!!!!) dizendo que seu governo fora o que construiu o maior número de vagas em penitenciárias na história. Além do que, 16 anos a frente do Estado acredito serem suficientes para uma revolução educacional por aqui, coisa que ficou longe de acontecer. A mais recente o ex-prefeito e agora governador Zé Serra, possivelmente uma das pessoas com maior rejeição por onde passa. Não é pegação no pé, Serra não é bem quisto no Palmeiras, onde é conselheiro, na política e nem no PSDB, seu próprio partido. Vou ser franco, não sei a fundo política, tão pouco acho que alguém saiba, fora os jornalistas que trabalham 24h com isso. Vemos as questões políticas através da ótica de quem nos conta a história, os jornalistas, e pelo resultado das ações dos políticos., dessa forma, evocando a tal liberdade de expressão dou meus pitacos mesmo. Pois bem, não foi o Serra que disse que cumpriria seu mandato de prefeito até o fim? Quem é o Kassab? Aliás nas últimas eleições me parece que do nada, tanto a capital como o Estado foram governados pelo PFL, sem que eu nem soubesse quem eram os quadros desse partido em São Paulo. Tanto o Estado como a Prefeitura, segundo a lógica tucana é usa-los como trampolim para o planalto central, numa sede de poder estranhíssima e pouco interessante para nós aqui na cidade.
Seguida a eleição de Serra, ele foi logo tratando de se preparar para o Bandeirantes -acredito que o mesmo ocorrerá com G.A. pois o cobertor do PSDB é curto - e arquivando alguns projetos interessantes para a cidade, como o museu da cidade, que se localizaria no Palácio das Industrias entre outras ações que eu contesto mas guardarei para mim, por enquanto.

Resumindo, espero que G.A. não vença as eleições. Espero que tenhamos debates sobre os projetos para 20 anos em São Paulo e não que se justifiquem votos pelo menos pior, tão pouco se justifique o voto nele com a máxima “O PT faz igual” que além de não ser totalmente verdade não justifica nada.

Um passeio no Mundo Livre

Semana passada, como a maioria ficou sabendo, Fidel Castro, presidente, ditador, chefe, comandante, herói e corneteiro de Cuba renunciou ao cargo. Uma grande parte das pessoas não-cubanas comemorou o fato, vislumbrando os passeios de Cuba no “Mundo Livre” e a pá de cal na Revolução Soviética do começo do século passado. Eu pessoalmente não vejo tantos motivos assim para a comemoração, sobretudo com relação a experiência soviética. Sejamos francos, conhecemos no dia a dia poucos cubanos e pouquíssimos soviéticos de modo que possamos ter uma visão crítica, imparcial e isenta sobre o assunto. Daqui nós vemos as coisas nesse bloco socialista sob os filtros ideológicos da grande mídia, que procura sempre que possível demonizar aquela experiência. Evidente que seria outro pais, com outras pessoas, mentalidade e cultura se os principais veículos de comunicação fizessem a apologia ao socialismo e ao comunismo sendo estes a fonte de acumulação de capitais por parte de seus donos.

Devemos lembrar que, pelo que consta, a Rússia e Cuba antes das Revoluções eram feudos de Czares e milionários de Miami respectivamente e depois de alguns anos, menos do que os que temos de República, a Rússia (ou União Soviética) ficou ombro a ombro com os EUA na corrida espacial, por exemplo ou Cuba desenvolveu um aparato social que qualquer um dos vários milhões de brasileiros das classes C, D e E invejariam. Ou seja saíram melhores do que entraram. A “reentrada" da Rússia sim foi catastrófica, pulando direto para um neoliberalismo que construiu toda aquela máfia e tudo mais.

Esperamos que Cuba não tenha o mesmo fim. A dimensão da nossa doutrinação ideológica fica clara quando percebi que ninguém discute as questões da Revolução, o que podia ter dado certo, o que deu errado, como as coisas poderiam funcionar como alternativa ao nosso capitalismo neoliberal. Quer dizer, para quase todo mundo, estamos fadados a participar do enriquecimento de 1% da população e ficarmos com as migalhas. A verdade única e imutável é que seremos assim para sempre, cultuando o deus dinheiro e fazendo o que for necessário para conseguí-lo, desde assaltar velhinha na porta do banco a invadir paises do outro lado do mundo. Qualquer idéia que mude a ordem do pensamento vigente é logo atacada e ironizada. Isso é ruim, nos conduz ao discursso único e pouca evolução. E isso acontece o tempo todo.
Vejo com muito bons olhos as experiências, pensamentos e tentativas de melhorar o funcionamento dos paises e do mundo e pouco a comemorar com o fim de um movimento que no mínimo pretendia tornar todos os cidadãos iguais.

É difícil aqui em São Paulo pensar numa coisa dessas, sem propriedade particular, coletivização, divisão de bens e pessoas iguais sem que o poder econômico dite o valor dessas pessoas. Cabe aqui questionar a quem serve essa doutrina, quem ganha e quem perde com isso e se quem nos empurra a verdade universal, a verdade de Deus goela abaixo tem pensado com o bolso ou com e cérebro.


20 de fevereiro de 2008

Crescendo mais e crescendo errado


Esta semana li o trabalho de conclusão de curso do jornalista Rafael Sampaio, que se formou na USP, sobre habitações precárias ou favelas, no popular (Periferia é periferia em qualquer lugar - http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/166 - leia porque vale a pena). Li também no caderno cotidiano de segunda-feira 18/02/08, que tratou de um assunto semelhante (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u373314.shtml ). O jornal informa que de 1996 a 2007 a população das periferias de SP aumentou em 1,23 milhões de pessoas (população de Guarulhos), enquanto o centro perdeu 433 mil pessoas (população de Santos). Ambos os textos orbitam a questão habitacional da cidade. Enquanto o primeiro trata dos resultados da falta de planejamento urbano, políticas habitacionais e todo o monte de interesses particulares e de especulações imobiliárias, que culminaram com a explosão das favelas na cidade e o espalhamento da mancha urbana para regiões longe do centro e conseqüentemente, da infra-estrutura. E nessa segunda, a Folha trouxe a tal reportagem mostrando a ocupação de áreas distantes, sobretudo no entorno da Serra da Cantareira, na zona norte e nas áreas de mananciais em Parelheiros, Marsillac e outras regiões na zona sul. O interessante no trabalho de Rafael Sampaio é entender, sob uma perspectiva social e temporal, a formação da metrópole e o espalhamento dos bairros. O texto da Folha é interessante, pois mostra agora e em tempo real o desenvolvimento dessa mesma dinâmica.

É realmente de tirar o sono saber que, segundo a própria Prefeitura, a maior parte desses novos loteamentos são clandestinos ou oriundos de especulação imobiliária. A própria Prefeitura se apresenta resignada com a situação, praticamente dizendo “É não tem jeito”. A questão toda é que com um planejamento urbano eficiente, descente e honesto a cidade não precisava crescer para fora e sim em direção ao centro, onde existe uma oferta brutal de prédios desocupados e a infra-estrutura está instalada. Ou seja, meio que a Prefeitura lavou as mãos e a cidade vai crescer do jeito que aconteceu até hoje, governada por interesses (ou ganância) dos espertalhões daqui. O texto de Rafael Sampaio, por exemplo, relata a famosa para quem prestou atenção na época, ocupação do prédio da fábrica de tecidos na Av. Prestes Maia. A gestão anterior até tinha um plano de ocupar prédios vazios para a “reforma habitacional” da cidade, coisa que eu acho muito válida. Plínio de Arruda Sampaio também tratou do tema durante a campanha para prefeito da capital.

Claro que não é só a questão urbanística que me tira o sono, a Serra da Cantareira está sendo subida, digamos assim, principalmente em Guarulhos, Brasilândia e Anhanguera. Como biólogo dói muito, pois veja você, a poucos quilômetros da praça da Sé existem bugios em liberdade, e sabemos que uma espécie de primata é um luxo incomparável em qualquer ambiente em questão. E lá existem outras ainda. E agora mais uma, o homo sapiens, que deveria estar ocupando todo esse concreto já de pé no centro. Assim como a serra, as áreas próximas às represas e a região de Parelheiros possuem remanescentes de Mata Atlântica e consistiriam ou consistem naquela janela para ambientes mais agradáveis na capital que todos nós necessitamos, parques gigantescos para a cidade gigantesca. E ambas as áreas estão sendo degradadas, a olho nu, agora mesmo.

A foto acima ilustra o assédio a serra por um desses bairros. Essa foto foi tirada da Av. Cerro Cora, de dentro de uma ex-concessionaria de veículos. Tem uma outra cena de gelar a alma no prédio do Banespa, olhando para oeste a mancha se alastra e esparrama pela parte mais baixa da Serra e da formação próxima ao pico do Jaraguá e vai embora, Caieiras, Cajamar e todas as outras vizinhas. Algumas ainda conseguem subir pela Serra, numa das faces mais altas, pelo menos do meu ponto de vista. Tirei as fotos, mas não dão a dramaticidade do fato.

Inclusive, nessa questão da Serra da Cantareira, é sabido que não é só pobre que procura os terrenos baratos não, tem um monte de residências de "veraneio"por lá das classes A e B, lógico que pudor não é proporcional a conta bancária.

Pois bem, seria importante que nas prioridades do próximo prefeito estivesse a racionalização do crescimento da cidade, que é o ponto chave para a cidade algum futuro, palavra muito pouco utilizada por aqui. Porém, acho que deveriamos ser mais incisivos em tomar conta da cidade, por nós mesmos, sem esperar a coisa acontecer.

14 de fevereiro de 2008

Aquela obra anti-skate

A paisagem urbana é toda dominada por carros. Para qualquer lado que se olhe eles estão lá, volumosos e velozes. Seja na parede de taipas do Pátio do Colégio, seja na frente da reformada Pinacoteca ou quase sobre o altar da Igreja da Consolação. Este fato por si já provoca restrição do uso do espaço urbano pela maior parte das pessoas. Mas e quando os próprios habitantes da cidade restringem o ir e vir dos outros habitantes? Além das muito comuns restrições as ruas sem saída, temos o caso das ruas onde simplesmente a diversão é proibida, “fora-da-lei”. Esse é o caso da Praça Horácio Sabino, na fronteira Sumaré - Vila Madalena, ou seja lá qual bairro for. Trata-se, na verdade tratava-se, de uma praça onde a ladeira, suave, lisa como um pêssego, era utilizada por skatistas, principalmente os portando long boards, dadas aquelas características. A moçada dividia a praça com o pessoal do bairro que ia dar uma corridinha, levar o cachorro também para dar uma corridinha e por aí vai. E não é que de um dia pro outro a prefeitura, sucumbindo às pressões dos moradores da rua, constrói faixas de paralelepípedos separadas uns 3 metros umas das outras, durante toda sua extensão para impedir o esporte? Pois é, aconteceu e a risível justificativa era de que aquela é uma obra anti-enchente, visando diminuir a enxurrada rua abaixo! Eu até acho que os skates poderiam incomodar, mas tenho certeza que outras soluções poderiam ter sido dadas de modo a não matar mais um dos escassos espaços públicos arborizados e tudo mais, que facilitavam a interação entre as pessoas e por que não dizer, protegia a rua, pois a posse da rua é do povo, oras.

Algum tempo depois, dada a repercussão, a prefeitura prometeu reverter a burrada, ou o equivoco, como quiserem, mas eu nem preciso falar se isso aconteceu de fato.

Mais na mesma linha


O equivoco na questão da obra anti-skate, além do motivo óbvio que não se enxota as pessoas dessa maneira, é que a atual administração da Prefeitura é que ela é formada por gente que não enxerga nada além dos seus próprios valores, incluindo suas percepções de arte e esporte.

O Brasil tem um nome respeitabilíssimo no skate mundial, logo como esporte popular caberia a Prefeitura fomentar sua prática e não agir no sentido oposto, o mesmo vale, claro, para a questão que a Prefeitura tem que fomentar a convivência entre as pessoas para manter a cidade viva e amarrada socialmente.

Nessa mesma linha, existe um contrato da administração municipal com uma(s) empresa(s) para a pintura de pontes, viadutos, encostos e todo o resto de concreto que pertença à cidade. Coincidentemente estes são os pontos utilizados por diversos grafiteiros para dar aquele colorido nos paredões. Brasileiros, vejam só, também são deveras respeitados nessa área e alguns artistas foram chamados para grafitar até um castelo escocês. Por aqui diversas galerias de arte têm montado mostras dessa arte urbana, de certa forma elitizando o lance todo, não de uma maneira negativa, claro, apesar de eu pensar que o que é da rua é da rua. Pois bem, diversos artistas e obras tiveram suas obras apagadas pela broxa insaciável das empresas de limpeza. Andréa Matarazzo, que recentemente ganhou capa de revista como o xerifão da cidade, mas é só o secretário das subprefeituras, defende as medidas dizendo que o que é arte para mim, pode não ser para as outras pessoas e não há como diferenciar obras de artistas com simples pixações ainda mais que o serviço é feito por empresas terceirizadas. Essa questão da arte é interessante, pois se esperássemos unanimidades poderíamos passar esta tinta cor de nada naquele painelzão ao lado da estação Anhangabaú, por exemplo. Ou o monumento à imigração japonesa na 23 de Maio, afinal as cores e formas podem não agradar a todos, correto? Da mesma maneira apesar de numerosas publicações, nacionais inclusive, ilustrarem grafite e tudo mais, uma mera volta pela cidade pode solucionar qualquer dúvida pois, sinceramente, acredito que o Andréa Matarazzo não é burro. O conjunto da obra é de preocupara. Esse conservadorismo, arcaico compromete até a própria vocação de vanguarda da cidade de São Paulo.

Aqui tem um link bacana: http://www.graffiti.org.br/



7 de fevereiro de 2008

Jasco

Seguindo a linha colaboradores, espero não ser processado, vai aí um post de Phydia de Athayde, que escreve para a Carta Capital e possui uma (uma??) indignação em comum comigo que é a história da praça do skate, sobre a qual escrevo outra hora. Neste post ela conversa com pesquisadores sobre a maconha, numa reportagem publicada na CC. Coloquei, ainda, o link para o blog dela, que vale a conferida regular.

(edição 471 da CartaCapital (de 21/11/07) )

O cérebro e a maconha

O neurocientista Renato Malcher-Lopes desfaz mitos sobre a drogaa Phydia de AthaydeOs atributos medicinais da maconha são velhos conhecidos do homem. Nesta terça-feira, 6 de novembro, um estudo da Universidade da Califórnia indicou que um composto da droga pode ser usado no tratamento da depressão. Há mais de 3 mil anos, um texto sagrado do hinduísmo a descrevia como capaz de aliviar a ansiedade e como fonte de alegria e regozijo. No Tibete e no Nepal, é tradicionalmente utilizada no tratamento de ulcerações, reumatismo e inflamações de ouvido, além de agir como anticonvulsivo e antiespasmódico em casos de epilepsia e tétano. Mas a tradição nada tem a ver com o papel hoje reservado à droga, substância ilegal mais consumida no mundo e alvo da política antidrogas norte-americana, com reflexos mundiais.Na última década, a descoberta de substâncias produzidas pelo cérebro que agem de forma similar à da maconha (os endocanabinóides) reabriu a discussão sobre os benefícios terapêuticos da droga. Dois cientistas brasileiros acabam de unir conhecimentos e as mais recentes pesquisas sobre o tema para lançar Maconha, cérebro e saúde (Ed. Vieira & Lent, 22 reais). Um dos autores, o neurocientista Sidarta Ribeiro, que descobriu como o sono e os sonhos atuam na organização das memórias, é diretor de pesquisas do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), um dos mais promissores pólos científicos do País. O outro, o neurocientista Renato Malcher-Lopes, apresentou um projeto de pós-doutorado na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e, atualmente, trabalha no Centro de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Malcher-Lopes participou da descoberta da regulação hormonal dos endocanabinóides e pesquisa a atuação da leptina e outros hormônios no controle do apetite e no equilíbrio fisiológico.A partir do paralelo entre os endocanabinóides e os canabinóides da maconha, o livro traz uma nova maneira de entender os mecanismos de ação da droga na saúde, na mente e no comportamento. Na entrevista a seguir, Malcher-Lopes explica como a maconha atua no cérebro, destaca os riscos à saúde, defende os benefícios terapêuticos comprovados pela ciência e, principalmente, desfaz mitos.
CartaCapital: Quais lacunas no conhecimento sobre a ação da maconha no cérebro o livro busca preencher?
Renato Malcher-Lopes: Por nossa formação em biologia molecular e em neurobiologia, resolvemos mostrar como processos biológicos de dimensões moleculares se relacionam com experiências mentais e com o comportamento. A grande novidade para o público leigo é a constatação de que o organismo produz substâncias semelhantes aos princípios ativos da maconha, os endocanabinóides, dentro de um sistema de regulação extremamente importante para quase todos os aspectos da fisiologia. Uma conseqüência desse novo conhecimento é a maior compreensão dos mecanismos por trás dos efeitos medicinais da maconha e dos problemas causados pelo uso abusivo.
CC: O livro menciona um estudo holandês, publicado neste ano, que concluiu “não haver perda detectável de tecido nervoso em usuários crônicos de maconha”. Tal informação contradiz o discurso comum de que a droga produz danos irreversíveis ao cérebro. Quem está com a razão?RML: A preocupação de que a maconha possa danificar o cérebro é legítima. Felizmente, contudo, as evidências indicam que este não é o caso, o que representa uma notícia muito boa, já que muitas pessoas poderão ter seus sofrimentos reduzidos, sobretudo doentes de câncer recebendo quimioterapia e pessoas que sofrem de dores severas para as quais os atuais analgésicos, com exceção da morfina, não são tão eficientes. Nunca houve consenso científico de que a maconha pudesse causar danos cerebrais.
CC: A droga, segundo outra pesquisa mencionada, ajuda a proteger os neurônios durante processos degenerativos como o mal de Parkinson ou Alzheimer. E em indivíduos saudáveis? Os neurônios “morrem” ou são preservados?
RML: Não há nenhuma evidência de que a maconha cause morte de células de qualquer tipo em pessoas saudáveis ou não. Por outro lado, há componentes na maconha que podem proteger os neurônios de processos degenerativos em qualquer pessoa. Mas o uso abusivo pode aumentar o risco de surtos psicóticos em quem tem predisposição à esquizofrenia.
CC: Os Estados Unidos vivem um dilema entre permitir e reprimir a aplicação medicinal da maconha. No Brasil, a hipótese nem sequer é cogitada. Por que o uso terapêutico da droga enfrenta tantas barreiras?
RML: No Brasil, o maior entrave são as leis e o estigma que elas trazem. Os obstáculos ao uso médico da maconha não encontram respaldo nem nos preceitos médicos nem no conhecimento científico. Remédios precisam ser testados clinicamente para averiguação de eficácia e segurança em humanos, e isso já foi feito para várias propriedades terapêuticas da maconha. O fato de a maconha ser mais eficiente como remédio quando inalada sempre foi um inconveniente, já que nenhum médico se sente confortável ao ver o paciente encher os pulmões de fumaça. Mas hoje em dia existem vaporizadores que permitem a inalação dos princípios medicinais da maconha sem a contaminação pela fumaça, poupando os médicos desse dilema.
CC: O livro diz que a maconha atua na formação de memórias, em contradição com o do discurso comum, que associa a droga à perda de memória. Por que isso acontece?
RML: O consumo da maconha afetará de duas formas a memória de trabalho – aquela usada para manter na mente um número de telefone que acabamos de escutar, por exemplo. Durante os efeitos inebriantes da droga, essa memória fica bastante reduzida. Quando os efeitos agudos passam, existe ainda um efeito residual, bem mais fraco, que pode perdurar por várias horas. Se o sujeito fuma maconha o tempo todo, estará sempre sob um ou outro nível de efeito, o que prejudicará o aprendizado de novas coisas, mas não causará o apagamento ou afetará a recapitulação de memórias já consolidadas. Não há, portanto, evidências de efeitos permanentes na memória. Por outro lado, é importante salientar que, além de prejudicar seriamente o aprendizado, o uso de maconha certamente reduzirá a motivação para o estudo dos jovens em idade escolar.
CC: Como o cérebro se refaz da desorganização do processamento de informação provocada pela maconha?
RML: O que parece ocorrer sob o efeito da maconha é um reordenamento no fluxo de informações entre os circuitos neuronais, tornando-o menos rígido. Em tese, esse afrouxamento lógico ajuda a explicar a dificuldade no uso da memória de curto prazo, enquanto permitiria a interconexão mais fluida entre idéias, conceitos e emoções. Os canabinóides da maconha atuam como chaves que abrem essas interconexões de forma mais ampla, intensa e menos seletiva do que a que ocorre naturalmente. Quando o efeito acaba, o cérebro volta ao seu estado normal de funcionamento. Tudo indica que nesse estado normal os endocanabinóides ajam de forma semelhante aos canabinóides exógenos, porém, o fazem de maneira muito mais precisa, atuando em momentos específicos e de forma seletiva em determinados circuitos neuronais. Nós acreditamos que isto ocorra em processos neuronais envolvidos normalmente no reaprendizado e na criatividade.
CC: O que se pode afirmar sobre dependência de maconha?
RML: Ela não causa dependência fisiológica, mas pode causar dependência psicológica. A interrupção abrupta do uso crônico normalmente não causa transtornos fisiológicos, mas, sim, mau humor exacerbado, diminuição do apetite e intensificação dos sonhos. Há relatos raros de ocorrência de náusea, mas, de uma forma geral, os sintomas da abstinência de maconha caracterizam uma dependência psicológica, relacionada aos efeitos nos circuitos cerebrais associados a sensações prazerosas. Embora seja relativamente moderada, essa dependência pode ser agravada em pessoas que apresentem estados depressivos ou transtornos psicóticos. A incidência de dependência em maconha é considerada baixa se comparada às do álcool, do cigarro, da cocaína e da heroína.
CC: Quais os riscos ao cérebro da associação de maconha com outras drogas, tanto lícitas quanto ilícitas?
RML: Ainda não há estudos sobre possíveis danos cerebrais causados pela interação da maconha com outras drogas, mas tais interações certamente afetam outros aspectos da saúde. O uso concomitante de álcool e maconha, por exemplo, fará com que uma droga potencialize o efeito sedativo da outra, o que pode gerar sintomas de depressão. A combinação de maconha com qualquer droga antidepressiva, como a fluoxetina (princípio ativo do Prozac), pode, em casos raros, gerar transtornos psicóticos e deve ser evitada. A interação com drogas estimulantes, como cocaína e café, pode ser prejudicial para pessoas com propensão a problemas cardiovasculares. E o uso de maconha em associação ao cigarro normal pode potencializar os efeitos danosos que a fumaça causa ao pulmão. Por outro lado, a maconha também interage sinergisticamente com outros analgésicos, mas esta é uma interação desejável no tratamento de dores severas.
CC: Qual a sua opinião sobre a legislação brasileira, que pune o traficante e tolera o usuário de maconha?
RML: Tomando como base as informações científicas e considerações éticas, defendemos a regulamentação da pesquisa clínica e do uso médico da maconha, que representa uma forma eficaz e barata de aliviar o sofrimento e melhorar o prognóstico de muitos doentes.

31 de janeiro de 2008

Bike, Bike e Bike


Coloquei ai ao lado alguns links que eu acho interessantes, dentro do contesto do blog. Um dos mais importantes, sim, importantes, é o Apocalipse Motorizado. O blog é um dos principais divulgadores e articuladores dos ciclistas na guerrilha contra os automóveis. A lógica é muito simples. 1 carro transporta em média 1 pessoa, consome N litros de combustível, gera X toneladas de monóxido de carbono, 3 carros (3 pessoas) ocupam o espaço de um ônibus (umas 45 pessoas) e ocupam 70% do espaço urbano público. Daí o lance das bicicletas entrando no meio para tirar o espaço do carro, não só como meio de transporte mais rápido e limpo mas também como um agente libertador desse espaço público. A bicicleta deve ser integrada com outros meios de transporte, como o metrô, trem e ônibus para aumentar a eficiência de locomoção e, para tanto, há a necessidade destes pontos chave da cidade possuirem bicicletários e uma rede de ciclovias que os liguem as zonas residênciais. Pessoalmente penso que a idéia das bicicletas como meio de transporte esbarra na questão do que as pessoas pensam sobre liberdades individuais (e também na remediavel falta de infra-estrutura). Acho que em determinados nichos e segmentos da população você será excomungado caso sugira que o indivíduo deixe a caranga em casa e use um meio de transporte coletivo e/ou sustentável. O argumento, aposto, seria que vivemos num pais democrático e capitalista e a lógica destes dois modelos é de que eu posso fazer o que quiser, ter o que bem entender e fazer uso desse bem do jeito que me der na telha. A questão, porém, ultrapassa os limites da má vontade e/ou preguiça individual. Vivemos em um lugar com quase 11 milhões de habitantes, mais um monte de milhares que vem à cidade para realizar suas atividades e desta forma não há alternativa de mínima qualidade de vida se não houverem “sacrifícios” e restrição destas supostas liberdades de consumo, percebe?
ps: chupinhei a imagem acima do referido blog.

30 de janeiro de 2008

Viaduto Santa Efigênia


O viaduto que liga, portanto, o Largo Santa Efigênia, com igreja e tudo ao outro lado do vale do Rio Anhangabaú, onde se localiza o mosteiro de São Bento. A parábola é que o viaduto tem origem inglesa, trazido peça por peça e montado em São Paulo.

29 de janeiro de 2008

Links

Na base do vamos-ver-o-que-vai-dar estou mexendo no blog e consegui aí do lado esquerdo da tela colocar uma seção de links.

São Paulo 454 anos

Na última sexta São Paulo completou 454 anos, mas com corpinho de 453. E por conta do aniversário da cidade, participei de dois eventos especiais, um na quarta (23) e outro na quinta (24). O primeiro foi um bate-papo entre colunistas da Folha de S. Paulo no auditório do MASP. Neste encontro estiveram presentes Gilberto Dimenstein, Bárbara Gancia, Danuza Leão e Delfim Netto, todos colunistas do jornal. Foram abordados diversos temas, principalmente versando sobre o espaço físico da cidade e a fauna que o compõe. Foi um evento extremamente interessante, pois pude observar entre os 3 colunistas paulistanos (Danuza Leão é carioca e disse que “nunca veio a São Paulo sem ter compromisso profissional”) perspectivas diferenciadas quanto a cidade. Pelo lado do Gilberto percebesse e ele deixa claro isto, que há otimismo quanto aos rumos da cidade, Gancia já é mais cética, principalmente quanto a algumas regiões da cidade, como a cracolândia, com relação a mudanças qualitativas. Já Delfim Netto tem as posições esperadas para um burocrata da cidade, membro do finado PFL e amigo de Paulo Maluf. Adivinha quem ficou reticente tanto a idéia do pedágio no centro da cidade como a conscientização do paulistano em deixar o carro em casa, principalmente os que utilizam os utilitários para levar o poodle ao pet shop ou as crianças para escola? Alguns o chamariam de conservador. De maneira geral, no entanto, o clima foi de grande otimismo com os rumos da cidade e orgulho de qualidades que possuímos e do nosso nível de desenvolvimento social. A cidade está borbulhando de ações e pessoas que realmente querem morar, desenvolver e serem felizes aqui, deixando de lado o que Dimenstein chamou de “mentalidade bandeirante”. Afinal se é para viver na polis, que seja em São Paulo.

O outro evento

Participei, como dito, de outro evento no dia 24. Tratou-se da apresentação de diversos indicadores sociais obtidos através de pesquisas do Ibope e de dados oficiais, capitaneado pelo Movimento Nossa São Paulo (www.nossasaopaulo.org.br). O evento, dessa forma, serviu como lançamento do “Observatório Cidadão” onde a população, e isso eu digo me referindo a você e eu. A idéia central é poder acompanhar o desenvolvimento de diversos indicadores sociais e a percepção do paulistanos quanto a cidade ao longo do tempo. No site os dados obtidos podem ser visualizados com diversas opções de navegação, como a comparação dos indicadores nas diversas subprefeituras da cidade. Foi um evento interessantíssimo realizado no teatro do Sesc Consolação, coalhado de autoridades e figuras políticas e sociais importantes. Alguns dos indicadores particularmente me chamaram a atenção como a proporção de pessoas que acham SP um lugar bom para se viver ou tem orgulho da cidade (63% e 83%, respectivamente). Mais detalhes podem ser obtidos no link (http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/files/ApresentacaoIndicadoresPercepcaoSaoPaulo.pdf) onde você pode pegar o pdf da pesquisa toda. Neste evento, a exemplo do que acontecera na noite anterior no evento da Folha, notei otimismo entre as pessoas no sentido de mudarmos nossa cidade, tornando-a mais humana e viva, além de um sentido de união que eu mesmo desconfiava.

A outra na ferradura

E como nem tudo dá certo, como podemos perceber que aqui não é para principiantes, na missa oficial do aniversário de SP na Sé, um morador de rua ou algo assim, já que esse não foi o foco da matéria da Folha, partiu para cima do prefeito armado com uma faca de cozinha. Logo foi dominado, mas não sem antes gritar “Mata eu São Paulo” (sic). Quer dizer, que mesmo que o sujeito estivesse embriagado, é de se pensar o que estamos fazendo, ou onde estamos vivendo para o cara subir no altar e gritar “mata eu São Paulo”. Como disse, os motivos do desespero não era o foco da matéria.
Mais curioso ainda foi que houve diversos furtos na Catedral, algumas personalidades como o Senador Suplicy, perderam a carteira. Segundo uma das vítimas, a segurança na igreja era boa e não havia moradores de rua em seu interior sugerindo, portanto, que as “pessoas de bem” foram os agentes dos furtos.

O melhor do ano passado.

Sem dúvida o melhor do ano que passou foi a Lei Cidade Limpa, que possivelmente foi a mais democrática que surgiu nas últimas gestões da cidade. Sua “área de cobertura” abraçou empresas de todos os tamanhos, ricas e pobres, além de devolver uma cidade com menor poluição visual a todos. Até os que no inicio se colocaram contra a idéia, achando que obrigação de todos conviver com o lixo visual, hoje percebem aonde a coisa chegou. Podemos ver fachadas, cores e prédios reformados em todas as regiões e sem dúvida a cidade ficou mais bonita. Se você não percebeu há a opção de assistir ao filme “Bem-vindo a São Paulo” onde diversos cineastas filmaram curtas metragens com a cidade como pano de fundo, ou que pegue qualquer estrada em direção as nossas cidades vizinhas e vejam a diferença.
Bom, que isso sirva de lição que precisamos de Prefeitos que não temam repercussões negativas (prefeitos temem repercussões negativas mesmo que por 5 minutos) em prol do bem maior e coletivo, que se tornem legados para a cidade (pelo amor de qualquer deus, não significam novos minhocões, novos rios mortos, novas pontes estaiadas). Dimenstein soltou outra boa no dia 23. Ele disse que sonha com o dia que vai aparecer o cara que vai dizer: Nasci para ser prefeito de São Paulo, não quero senado, presidência ou governo de estado nada, quero ser só o prefeito de São Paulo. Essa veio num momento oportuno já que os partidos estão estudando a melhor estratégia para usar a nossa cidade como trampolim para outros cargos, como alias, aconteceu na última eleição, ou alguém aqui votou no Kassab (por melhor que seja sua administração)? Oxalá aconteça um dia.
“A coragem é rara quando a unanimidade assume o controle”

22 de janeiro de 2008

Agressividade

Há coisa de duas semanas saiu na revista da Folha 12 ou 20, não lembro bem, textos de até 100 palavras sobre a cidade de São Paulo. Chamou atenção (de mim e do editor da revista) que todos os textos versavam sobre violência, angustia, degradação e desespero. Parece-me que estes são os únicos sentimentos que nossa cidade tem sido capaz de provocar em seus habitantes, além de uma suposta pobreza literária, onde tudo hoje em dia se parece com reality show, mas esse não é o assunto que estou tratando aqui. O que eu digo é que estamos, todos, construindo uma cidade que parece mais o inferno de Dante, mais por culpa da “fauna” que a ocupa do que necessariamente problemas de viabilidade da metrópole. Claro que não estou dizendo que aí fora é um mar de rosas, mas essa cidade tem um nível que a maioria esmagadora das cidades e estados do Brasil não tem. Voltando a questão das pessoas, eu digo que há uma agressividade no ar e nas atitudes que são absolutamente desnecessárias. Seja no trânsito, nas relações mais próximas entre as pessoas no transporte público, o que vemos é uma falta de solidariedade, de companheirismo (hei, estamos no mesmo barco!!!) assustadores. Desde os passageiros que sempre tentam entrar no vagão do trem/metrô antes dos que estão dentro saiam até atitudes da Prefeitura que colocou arame farpado, aqueles de campo de concentração, no Pátio do Colégio, bem no mirante para a Várzea do Carmo e ao lado da cruz onde J. Paulo II rezou missa. Somos alvejados com todo o tipo de violência, como no mesmo Pátio do Colégio, a centímetros da parede da igreja original (ta, não é a original, mas é a que mais se aproxima), ter se transformado em um estacionamento (o tema “carros, o principal objeto de desejo e destruição” será abordado em um momento oportuno no futuro). Quer dizer, nem o passado escapa da nossa violência. Acredito que tenhamos um sério sub-desenvolvimento cultural, maior ainda que o sub-desenvolvimento educacional, pois o que eu acho é que o que falta é cultura e não necessariamente educação formal. Não acredito que precisemos de muitos anos de escola para perceber que não se deve jogar lixo no chão, esperar esvaziar um espaço limitado (vagão do trem) antes de enchê-lo novamente ou que o secretário de cultura ou o de patrimônio histórico não tenham educação suficiente para perceber que estão agredindo a cidade e os cidadãos mantendo o Pátio do Colégio daquela forma. Precisamos adicionar o bom senso à água assim como fazemos com o cloro e o flúor.

Noise

Nesse final de semana assisti a um filme que poderia ser ambientado em São Paulo. Trata-se de “Noise” com Tim Robbins onde o protagonista adquire uma patologia, um asco, uma aversão tal pelo barulho de Nova Iorque, que passa a depredar os carros cujos alarmes tocam incessantemente. Desta forma, trava-se uma briga entre o sujeito e sua família, pois evidentemente há punições para nosso “herói”. O que me chama a atenção, além de ser um filme interessante, é que em muitos dos diálogos as pessoas, moradoras da cidade, e passiveis dos mesmos sofrimentos dizem – porque se importar? Assustador assim mesmo, real assim mesmo. Não se importar com os assuntos que dizem respeito a todos, seguir apenas os instintos mais individualistas e egocêntricos se tornou o padrão de comportamento em São Paulo e em outras grandes cidades, como sugerido pelo filme. A solidariedade com o sofrimento alheio, gentileza e bom convívio foram abolidos das cidades o que gera mais sofrimento, mais agressividade e uma cidade progressivamente mais inviável. Arrematando, o cara do filme obviamente levou sua paranóia, justificável, até o limite, mesmo poucos tendo entendido o porque de um individuo estar desprendendo toda aquela energia pelo bem comum. Gostaria de saber quantos indivíduos aí pela rua se importam com o bem comum. Daqui da minha janela vejo as pessoas barbarizando com os carros, bem dentro do bairro residencial. Tiro daí então que não são muitas as que pensam no próximo.

4 de janeiro de 2008

Pós-Guerra ou pós-mais uma batalha

São Paulo, como inúmeras outras cidades brasileiras, não é para iniciantes. Na verdade, talvez seja um pouco mais dramática do que outras, pelo tamanho e pela proposta. Não sou especialista no assunto, a academia pode cuidar disso com mais competência, no entanto, se não podemos dizer que a cidade nasceu com interesses belicosos, certamente nasceu com interesses que perpetrariam alguma violência, neste caso contra os índios do planalto. Desde então, e já se vão mais de 450 anos, a cidade foi tomada, com mais ou menos intensidade, por diversos outros grupos cujo interesse não passava de "fazer" dinheiro na cidade. Esse é o mote principal até hoje e coordenou, por exemplo, a industrialização da cidade baseada na industria automotiva transformando o simples objeto carro na maior entidade da cidade, quiçá do Brasil, sendo agora onipresente e onipotente. Acredito que se a fabricação e venda de carros e acessórios não gerasse lucros para os envolvidos, dificilmente encontraríamos alguém capaz de dizer que estes não são agentes diretos da violência na cidade. Criou-se uma fauna na cidade que não entendeu direito o conceito crescente que São Paulo se tornara uma cidade industrial, objetiva e acelerada e optou pela truculência e a falta de humanidade, condições para viver com outros seres humanos. Você pode constatar nossa cordialidade com um "passeio" de carro ou tentando sair do metrô enquanto os que estão fora do vagão tentam entrar. Claro, como outra lei qualquer, as leis da física também sofrem resistência quanto sua aceitação. Fico ainda mais confuso quando meses após a batalha na frente da Catedral da Sé durante a Virada Cultura, outro tentáculo armado do poder constituído promove outra batalha, desta vez, o Natal Solidário, mesmo local, destinado a proporcionar shows e alguns presentes aos moradores de rua. Resumindo, a Guarda Civil Metropolitana, na verdade os homens que devem ter nomes e famílias (afinal, se esconder atrás das instituições para barbarizar por aí é ato corriqueiro no país) desceram o cacete nos moradores de rua. O evento é muito bem narrado pela vereadora Soninha, em seu blog na Folha (http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/arch2007-12-23_2007-12-29.html#2007_12-27_13_39_40-10366234-0).
Há quem diga que estas instituições, militarizadas ou não, ainda acreditam estar acima da própria sociedade e podem agir arbitrariamente. Mais curioso ainda é que alguns que teriam como intervir nas ações, digamos, desastradas destas corporações, como o governador, foram vítimas de tal truculência no passado. Lembra da entrada na faculdade quando no ano seguinte você mal pode esperar para aplicar o trote em outros calouros e revidar o que ocorreu com você mesmo.Seria pedir muito que as pessoas utilizassem mais a razão, em detrimento da truculência, no dia a dia e no desempenho de suas funções? Estamos de olho em vocês.